Minha dor é política, é histórica, e não é só minha. Carrego em mim a dor de todas as mulheres caladas. Sinto a dor de todas as mulheres que se sentem culpadas por internalizarem a cupabilização social. Sinto dor em cada “é brincadeira” que ouço após uma piada de fundo machista. Sinto dor em cada discurso que ouço sobre família/propriedade e tradição. Sinto dor ao saber que ainda existem mulheres vítimas de um sistema opressor e patriarcal, um sistema que é internalizado em suas próprias vítimas, fazendo-as acreditar que há uma competição feminina em busca de algo (um macho alfa) que é justamente sua própria figura opressora. Sei que se sinto dor é porque ainda existem mulheres que também a sentem. Mesmo porque, cabe a mim – sexo frágil – sentir dor e esperar meu marido com um prato quentinho de comida para reconfortá-lo, marido que chegou cansado de uma cozinha profissional. Cabe a mim aceitar o fogão caseiro e o desprestigio da minha comida do dia-a-dia, enquanto meu marido está transformando, com sua capacidade máscula, comida em arte. Marido que está colhendo frutos do prestigio da Alta Gastronomia e ganhando audiência com o tal discurso da cozinha de memória afetiva e cozinha caseira, enquanto sua senhora mãe responsável por toda essa memória gustativa cumpriu apenas sua função de cozinheira doméstica. Devo entender que Alta Gastronomia é pra macho que, além de mais concentrados e com poder de liderança, suportam altas temperaturas, facas e pesos (a velha história da cultura de caça e força masculina). Julia Child que quebrou, no final dos anos 40, esse paradigma entrando para a masculina cozinha francesa da Le Cordon Bleu, não nos ensinou nada. Que pena! Vamos continuar saindo de casa para comprar comida caseira.

Leia o post da Mari Mori sobre a lista da Time com os “Deuses da gastronomia”.

lugar de mulher no fogao