Vídeos e Receitas de Sobremesas | I COULD KILL FOR DESSERT

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Crônica da água de coco

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Era primavera, colorida e florida. Era um dia mais quente do que de costume, a temperatura era atípica, o tempo dolorosamente mais seco e a brisa do mar era quente e fazia com que o suor, em contato com o sal do mar, grudasse no corpo de forma mais incômoda do que em qualquer outro ano. O verão queria aparecer mais cedo, escondendo o frescor e os aromas das flores da primavera.

Bianca, de pelos dourados e pele clara, corria na areia como se não existisse calor, como se a areia não grudasse em seu corpo e como se o sol não ardesse em sua pele. Ela era magra, muito magra, com peitos achatados e costelas salientes. Ela suava, a água de seu corpo saia de seus poros já dilatados escorrendo pelo seu pescoço, eram gotas salgadas como o mar, que exibia sua imensidão à direita de Bianca. A vermelhidão de seu rosto acusava, a essa altura, um ser humano dentro dessa anormal disposição da garota.

Depois de muito tempo parou, passou o pulso horizontalmente na testa tirando o suor excessivo do rosto. Soltou o rabo de cavalo que, por sinal, já estava frouxo. Com um charme que consumia minha atenção correu em direção ao mar, como eu corro em direção à barraquinha de porções fritas na beira da areia. Mergulhou e sentiu prazer com a temperatura da água. Depois de se refrescar como se a água salgada fosse doce, saiu, ajeitando-se.

Ela pulou com um pé só e tirou a água salgada e já quente do ouvido. Sentou-se em uma das cadeiras com outras tantas amigas. Feliz, olhou a porção encharcada de camarão empanado e comeu como se todo aquele óleo quente fosse uma água de coco gelada. Eu, sentada, não pude entender muita coisa. Já em dúvida sobre mim, olhei para baixo e percebi algumas dobras na barriga, achei mais flácida do que ontem. Arrotei com azia as primeiras mordidas do pastel que havia começado. Fui tomar uma água de coco com canudinho para que, ao menos, exercitasse as bochechas.

cronica-da-agua-de-coco-jessica-giovanini-ickfdfoto: She Knows

Crônica do Algodão Doce

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Cerejas são tão boas que podiam dar em árvores, pensou alto a pequena Valentina. O pai, desajeitado, achou curiosa a observação da filha e entusiasmado em dar a boa notícia afirmou que sim, elas nascem em árvores. Valentina sorriu. Imediatamente a notícia fez com que seus olhos brilhassem. “Imagina, pai. Uma árvore toda cor de rosa com cerejas vermelhas?” O pai apertou as bochechas da filha. Naquele momento pensou que poderia vê-la mais do que apenas uma vez por mês.

Era um dia de céu aberto e sol laranja. Resolveram ir ao parque que, por sua vez, exibia uma grama verde bandeira, úmida e fresca. Tomaram um sorvete de frutas do bosque juntos. Valentina se sujava com o sorvete que derretia sob o sol e o pai não se preocupava em limpar, afinal, ele só via sua filha uma vez por mês.

Já era fim de tarde, mas Valentina parecia estar ainda no auge de sua empolgação com o passeio que lhe trazia tanto prazer. Foi quando deslumbrou-se com as doces nuvens de açúcar, tão coloridas, que um senhor abundante em carisma carregava aos montes. Antes de ela pedir seu pai perguntou: “Qual cor você prefere, filha?”. A pequena, sem pensar muito, respondeu: “A cor de rosa.”.

A vida da Valentina ao lado de seu pai era doce e rosa, como as cerejeiras e o sorvete que tomavam juntos. Entretanto, era uma nuvem de açúcar e derretia em poucas horas. Tinha a duração de um pequeno e curto dia a cada mês. A menina tinha uma mãe atenciosa e uma vida farta, mas a presença de seu pai ressoava na lembrança do gosto das frutas do bosque. Os outros dias, à espera de seu pai, tinham cor mais escura e gosto mais intragável. À espera pelo dia do algodão doce cor de rosa.

cronica-algodao-doce-ickfdfoto: Avito

A sanidade é uma loucura

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Era um dia quente, seco e cinza. Havia sido uma manhã boba, de pijama e de ramela no olho. Consequência de uma madrugada de insônia, leitura e aflições. Não havia sido dias bons e não se via motivo para arrumar o cabelo. Mas já passara a manhã inteira na cama e agora era hora do almoço, hora de pentear o cabelo e de fazer o que deveria ser feito.

Giovana não podia entender como conseguiria ser o que não lhe parecia genuíno, mas ela tinha que acordar e tinha que comer. Se remoendo na cama, preferiu levantar em um pulo só. Sentiu tontura, fraqueza mas censurou a si mesma dizendo: “Giovana, seja drástica como a vida. Levante!” A sanidade é uma loucura. Era hora de comer, mas ela não conseguiria.

Não conseguiu comer o ovo produzido de forma industrial, resultado de uma manipulação genética das galinhas que foram, por sua vez, chocadas em incubadoras e amontoadas em pavilhões, sofrendo uma curta vida miserável. Leu sobre os suínos, os bovinos e também não tinha como ser negligente à realidade, atormentadora, de suas vidas proibitivas e nem ao pesadelo dos matadouros que ressoavam em sua cabeça.

Ela não poderia mais comer animais e nenhum de seus derivados. Assim o fez por muito tempo. Passou a mergulhar no mundo dos vegetais. Ficou confusa. Agrotóxicos, pesticidas, praguicidas, biocidas, desinfetantes, agroquímicos e tantas outras substâncias responsáveis por matar insetos, fungos, bactérias, moluscos, roedores. A essa altura já se questionava se a realidade da indústria pecuária era muito diferente da agrícola.

Entre hormônios, agrotóxicos, alimentos geneticamente modificados e a indústria colorizando e conservando deliberadamente tudo, Giovana não conseguiu mais comer. Travou. Ficou frágil e a cada dia mais doente. Tentou plantar, colher, mas a realidade da cidade em que vivia era outra. Era uma metrópole e Giovana precisava sobreviver em todos os sentidos. Foi épico. Foi contra a lei natural. Ela preferiu morrer do que matar. A sanidade é mesmo uma loucura.

sanidade-loucura-ickfd-edmeefoto: Edmée

Crônica da Maçã

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Marina era pequena, mas audaciosa. Queria entender da vida e falar das coisas da mente como se falava do tempo. Sabia que a alma era como flores, que floriam em determinadas épocas e que em outras era preciso morrer. Ainda não era primavera para Marina. Depois de alguns anos, voltou ao seu psicólogo, mais cheia de ideias do que antes. Falou o quanto pode e disse mais do que planejou. Saiu tonta e fragilizada. Marina se sensibilizou com o universo vivido em uma sessão de terapia. Seu corpo e sua mente adoeceram.

Ela ficou confusa, odiou não ter controle do que sentia, desconfiou do mistério da figura de seu psicólogo e quis saber mais do que deveria. Ignorância é uma benção para os que querem viver no escuro. Marina quis abrir a janela, mas a claridade a cegou. Ela ficou de cama. Estudou tudo o que pode sobre o inconsciente, foi buscar sobre os traumas e quis até entender o ato falho. Leu sobre a repetição, sobre o significado dos gestos, dos instintos, dos impulsos e sobre o amor de transferência. Ela sentia tudo o que lia, pensou sofrer de todos os sintomas que existiam e tinha certeza de que já havia tido consciência de seu inconsciente.

Marina quis morder o fruto proibido. Apaixonou-se pela figura misteriosa de seu psicólogo. Enlouqueceu, se censurou e se proibiu. Mas a proibição é tentadora, e a tentação é uma benção. Marina queria a maçã vermelha. E que mal tinha em querê-la? Mas o amor não era o amor, era a possibilidade para a libertação. O sofrimento precede a primavera. Ela precisava florir, renascer e ressignifcar sua existência.

Seu psicólogo respondeu com o silêncio, deu-lhe a falta, e a falta fez com que Marina repensasse sobre os seus desejos. O amor que Marina sentira era o amor direcionado ao saber. O psicólogo exercia uma função de suposto-saber, mas o saber sobre si estava nela, e só poderia entender quando conseguisse conviver com a falta. Marina não pode comer a maçã, nem abocanhá-la como desejou, nem sentir seu suco doce escorrendo pelas laterais da boca. A macieira dá flores na primavera e frutos no outono. Era tempo de primavera.

cronica-maca-ickfdfoto: Honey and Jam

Crônica do chocolate e do prazer

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Como uma pintora em sua oficina, Ana pintava tudo quanto podia, só que pintava com aromas e prazeres os seus chocolates tão cheios de histórias e mistério. Era uma artesã, mas que havia estudado, sob todas as coisas, o prazer. Muito condenou-se sobre sua sensualidade. Alguns acreditavam que era bruxaria, outros, coisa pior. Mas a sedutora Ana só fazia uso de duas armas: chocolate e prazer. O que podem, duas coisas tão terrestres, fazer a pessoas do bem? Perguntavam-se os vizinhos, mas ainda muito inseguros sobre a resposta.

Ana derretia lentamente o seu chocolate em aproximados 50 graus, em uma tigela sobreposta à uma panela que continha água com pequenas bolhas efervescentes. Durante o banho-maria os aromas pareciam enfeitiçar não só sua cozinha, mas a vizinhança, que apesar de censurar com as palavras, já se ludibriava com o ritual que aconteceria. As narinas que passeavam pelas ruas enchiam o peito de alegria, só de serem seduzidos por aqueles perfumes que espalhavam-se tímidos, mas presentes. Em sua pequena oficina de chocolates havia uma vitrine, onde a temperagem do chocolate era feita todos os dias às cinco horas da tarde.

O seu pequeno espetáculo começava quando despejava toda a densa massa derretida, que descia dançando em direção ao mármore gelado, e começava a massageá-la. O chocolate, por uma das espátulas, era espalhado sob a superfície de trabalho, com a outra, trazia-se a massa já espalhada, em direção ao centro. Essa massagem, que acontecia com certo ritmo, durava até o instante em que aquela untuosa massa chegava na temperatura aproximada de 30 graus. A partir daí o mundo era de Ana. Tudo quanto podia fazer, fazia. Entre diversos bombons o de chocolate com especiarias da casa lhe rendia a maior fama.

Apesar das pessoas acharem que os quitutes de Ana conquistavam qualquer um que fosse, ela só conquistava quem queria. Ana, a mulher de meia idade, apesar de muito confiante, às vezes indagava a sua própria certeza de não querer se casar. Estava certa de que nenhuma outra pessoa poderia lhe proporcionar tanto prazer quanto os chocolates. A solidão foi o caminho que encontrou para aproximar-se dos doces. O prazer que sentia era absoluto, não só com seus irresistíveis bombons, mas com o próprio acontecimento de fazê-los.

Agora, no meio de suas incertezas, a campainha tocou. Era tarde da noite. Com um laço vermelho amarrado em uma caixa escura, entregou mais uma encomenda que continha mais do que bombons. Apesar dos palpites que circulavam pela vizinhança, ninguém podia afirmar, ao certo, o que continha de tão afrodisíaco naqueles chocolates. Era o prazer depositado por Ana que causava tanta euforia a quem comia. Ela, solteira, não imaginou que seu prazer lhe criaria laços com outros tantos.

cronica-do-chocolate-jessica-giovanini-ickfdfoto: Makeupsorcery

 

Crônica do pão e da tradição

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Não era apenas o fato dele ser o melhor pão do mundo, era o pão da minha avó. E não era só o pão, era todo o mistério em torno dele que me intrigava quando criança. Ela me contava histórias desde o cultivo do trigo à descoberta da fermentação, sobre como os primeiros pães eram trabalhados, moldados e assados. Uma aula sobre a fabulosa e milenar tríade base: farinha de trigo, água e sal.

Os densos pães de minha avó refletiam um tanto de sua personalidade, tão cheios de segredos e truques que só ela parecia saber. O universo se abria dentro de sua cozinha quando eu a observava se deleitar dentre os pães. Com movimentos certeiros minha avó sovava as massas elásticas, acrescentava em alguns pães gordura, em outros especiarias inusitadas.

Sua sabedoria parecia ser depositada, com tanto cuidado, em cada pão que fazia. Modelando-os, ela me dizia: “Cecília, o pão é um tradição. Você deve ter muito compromisso na hora de prepará-lo.”. Eu, ainda bem pequena, não entendia o peso histórico dos pães, mas desde cedo cresci entendendo que era coisa séria.

Com uma umidade ideal, algumas tardes se faziam mais especiais que as outras. Minha avó as comemorava, religiosamente, indo para a cozinha quando o clima estava a seu favor. Ela, em seu pequeno forno a lenha, trabalhava incessantemente para que a temperatura e a umidade fossem ideais para seus pães, e explicava a mim a importância desses dois elementos ao se assar um bom pão.

Ela, perfeccionista, dizia que o seu cuidado era em respeito às leveduras. Brincava me dizendo que toda a vez que colocava a massa para descansar, as leveduras trabalhariam por ela que, por sua vez, descansaria. “Pão é vida, minha neta!”. E também era, notoriamente, um dos motivos que deixava a minha avó tão viva.

Sua bisneta nasceu. Tentei ensinar a minha filha, com muita responsabilidade, tudo o que minha avó havia me ensinado. Minha filha, com nojo da elasticidade da massa, intrigada ao saber que as leveduras eram organismos vivos e com dor nos braços de tanto sovar as massas, de forma muito espontânea, me questionou: “Mãe, não é mais fácil comprar?”.

Naquele momento me senti frustrada em todos os sentidos, mas principalmente como mãe, não conseguindo despertar em minha filha toda a curiosidade que minha avó, com tanta sabedoria, me despertou. Tudo nela e na forma com que ela fazia seus pães era fascinante para a criança que fui. O tempo é outro! Mas, como se fosse hoje, o aroma dos pães de minha avó assombra as minhas narinas tão saudosas.

cronica pao ickfdfoto: Kids activities blog

Crônica da melancia

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cronica da melancia ickfdfoto: Daniela Spera

“O que é felicidade, mãe?”, perguntou a filha. A mãe, como de costume, não respondeu e continuou arrumando a mesa do jantar. Com um pano umedecido espalhou um produto cheirando à lavanda no vidro que cobria a mesa de madeira da sala. Passou com o ferro três das quatro toalhas que compunham o jogo americano. Colocou sobre as toalhas os pratos brancos, os talheres que há pouco lustrara com álcool e ajeitou com zelo o guardanapo de pano azul marinho. Pegou a bolsa e em direção ao elevador disse à filha: “Vamos!”. A filha perguntou aonde iriam. Ela não respondeu. 

Chegando na floricultura, a filha se encantou com as rosas brancas e a mãe deixou que ela escolhesse as de seu gosto. No supermercado escolheram juntas as folhas verdes mais vistosas, o queijo mais maduro, e o vinho de melhor safra. No caixa a filha lembrou, com um susto, que se esquecera da melancia. Incentivada pela mãe, a filha foi correndo buscar a mais doce. De volta ao lar, as duas preparavam com carinho o jantar. Colocaram as rosas no centro, a salada de folhas em um recipiente de vidro, os queijos ajeitados na tábua. Tinham duas taças e um copo de suco de melancia.

 A campainha tocou duas vezes, a neta abriu a porta, o avô abraçou a pequena e, como surpresa, lhe entregou uma melancia. A neta comemorou de forma espontânea e disse que teria que guardá-la, pois também já havia comprado uma melancia para o jantar. A mãe, agora filha, recebeu o pai com um sorriso discreto no rosto e uma felicidade controlada. A luminária da sala de jantar era fraca e por vezes fazia sombras inusitadas, a neta achava graça e observava tudo enquanto bebia com seu canudinho vermelho o suco. O avô e a filha brindavam a melhor safra.

Era mais um domingo em que a pequena bebia com alegria e entusiasmo seu suco de melancia, bebia toda vez como se fosse a primeira. Alguns domingos como esse se passaram, com a melhor safra e a melancia mais doce. Então a campainha tocou, só que só uma vez. Não era o avô, era a notícia de que ele nunca mais estaria na mesa de jantar.  Esse dia não teve o jantar nem o suco de melancia. A neta ainda não sabia o que era felicidade, mas já provava da tristeza. Essa noite só teve suco de abacaxi e ela não reclamou.

Crônica da Amora

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Naquela tarde os raios de sol fitavam as nuvens e sua luminosidade estourava a vista. Luciana, mãe da pequena Ana, que nunca tinha provado uma amora, perdera a razão que nunca quis ter. Ela era mãe de primeira viagem, encantada com a maternidade, quis que a filha entendesse desde cedo a natureza, as flores, as cores e as frutas. Levou a pequena perto do lago da fazenda de sua avó, onde tinha um pé de amoras que lembrava Luciana sua infância. Eram centenas de pontinhos vermelhos e roxos espalhados dentre galhos e folhas verdes, era a celebração daquela tarde que o sol sorria para a união e entrega das duas.

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Reference for WW2

A mãe e a filha ficaram descalças, algumas formigas picaram seus pés. Luciana tirou os pés da criança em contato com a grama verde e colocou desamor pelas formigas no coração de sua filha. Nada que estragasse a curiosidade de uma pequena atenta à vida e aos sabores. A filha colheu quantas quis do pé, mas quando levou a primeira amora em direção à boca a mãe, assustada, censurou. Luciana censurava não só uma amora, mas a existência de um desejo intrínseco à infância, a curiosidade pelo sabor, aroma e textura que agora ressoava como proibição no coração da pequena Ana. O que tem de bucólico em uma amora, se não comê-la do pé? A pretensa mãe só não era tão malévola porque era ingênua. 

Chegou em casa com a cesta cheia e a criança vazia. Nesse momento Ana já estava cansada, fez bico como qualquer outra criança faria. Frustrada com a experiência a criança chorou. Com o desespero do choro da filha e na ânsia de facilitar seu primeiro contato com a fruta, Luciana fez o suco das amoras colhidas com açúcar e sem afeto. Tirou de sua filha, tão cedo, o direito de entender não só as frutas, mas a beleza torta da natureza e a perfeição que existe na imperfeição de tudo que é vivo. O suco que ofereceu a sua filha, mesmo sendo da fruta, era uma experiência triste e morta. Ana levaria para si a falsa doçura das coisas findas e não o verdadeiro azedume inerente à vida. 

cronica da amora ickfd jessica giovaninifoto: Live Journal

Crônica da Barriga Cheia

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Ela abriu a geladeira, pegou uma fruta, pegou duas e três. Com fome, almoçou a comida da panela toda. Era mandioca, farinha, ovo, arroz e um tanto mais. Repetiu e ainda não se sentiu satisfeita. Comeu tudo o que pode, mais do que pode e comeria mais se não fossem os olhares que repreendiam o seu exagero. Ela jurava que era fome o que sentia. Não era medo, ansiedade ou coisa ruim. Era fome da barriga, concreta e comprovada pelo estômago que roncava de hora em hora. Essa mulher não tinha bicho nem lombriga, era audácia de comer na panela e ainda esconder um pouquinho para mais tarde. Ela era pecadora e não era pecado pouco.

Ela acordou, como de costume, abriu a geladeira com os pés descalços, coçou os olhos irritados da luz da geladeira e se cortou rente aos olhos com a própria ramela cristalizada do sono. A alegria matutina já era enorme. Haviam sobrado três pedaços da pizza do dia anterior, não eram os seus preferidos, mas ainda sim eram três. Comeu fria a primeira e as duas seguintes esquentou. O queijo derretido entrava entre seus dentes e com uma saliva ainda seca da manhã, forçava uma mastigação rápida. Mordeu o caroço da azeitona, o maxilar estalou, mas nada que atrapalhasse sua celebração.

Sentou em frente ao computador e começou a trabalhar, eram muitos projetos para terminar. A faminta era arquiteta, mas não construía nada braçal que justificasse tanta fome. Depois de algum tempo (pouco), se embrenhando em planilhas e projetos, a fome era tamanha. A lasanha do jantar que tinha planejado comer com o marido, ficou para aquele instante, a cena se repetia, queijo escorrendo, creme branco escorregando da colher direto para a garganta e um tanto de molho vermelho em seu pijama já gasto.

Estar ao lado dela era sempre uma celebração ao apetite, à comida e à saúde. Entretanto, com a mesma intensidade que ela comia, a comida ia embora. E o ciclo era renovado com uma fome ainda mais devastadora. Ela jurava que não era gula, tinha um vazio que precisava preencher. E não lhe parecia anormal preencher com voracidade o apetite da vida. O vazio sim era coisa ruim. E mesmo trabalhando sentada, concordava com o ditado que “saco vazio não para em pé”. E sabia, melhor do que ninguém, que “barriga vazia não conhece alegria”.

cronica da barriga cheia jessica giovanini ickfdfoto: Getty Images

Crônica do Brigadeiro

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Brenda abriu a lata de leite condensado com um abridor já desgastado e enferrujado pelo tempo. Despejou o creme, que caía com certo charme, na panela. Colocou uma colher generosa de manteiga sem sal e, por último, acrescentou o quanto quis de chocolate em pó. Pegou uma colher de pau, mas teria usado qualquer outra que estivesse ao seu alcance, e começou a mexer a tríplice em fogo brando.

Ela mexia com paciência, ensaiava movimentos repetitivos. Dançou a colher o quanto pode e quando cansou mexeu apenas de forma circular. As primeiras bolhas cheias de corpo começavam a saltar, liberando todo seu aroma da panela. Brenda, com certo alvoroço, se pôs logo a abaixar o fogo e tratou de mexer com mais eficácia. Por fim, virou a panela e confirmou o ponto do doce. O brigadeiro estava pronto, brilhoso, encorpado e cheiroso que só.

Despejou a tríplice homogeneizada e reduzida pelo calor do fogo em uma tigela de vidro. Raspou a panela e lambeu a colher. Queimou o céu da boca e a essa hora já pensava se a dor não estragaria a festa. Convenceu-se de que era bobagem e se acalmou para conseguir esperar o brigadeiro esfriar. Pegou no sono e acordou assustada conferindo as horas. Só havia passado pouco mais de 15 minutos. Desistiu do sono e foi ver alguns álbuns de fotografia da família. Horas depois o brigadeiro já lhe parecia em uma temperatura razoável para ser enrolado.

Passou, sem pudor, manteiga na mão e começou a fazer as bolinhas. Ela não tinha tanta prática e os primeiros dez brigadeiros não saíram de tamanho uniforme. Mas a cada um que enrolava descobria, de forma empírica, uma técnica ainda melhor para continuar enrolando, ou, pelo menos, concluía como não deveria fazê-los. Foram muitos, porém não contou para saber o quanto. Mas quando viu todos prontos achou o suficiente. Guardou em uma caixinha que escreveu “brigadeiro” com letra de mão.

Se vestiu, prendeu o cabelo e colocou um sapato confortável. Pegou a bolsa, a chave do carro e os brigadeiros. Confirmou se a caixa do doce estava firme no carro para que não se remexessem demais durante o trajeto. Saiu da garagem de seu apartamento e fez o mesmo percurso que fazia há três meses. Enfim chegou no hospital. Em direção ao andar pediátrico levou a caixinha de brigadeiros como troféu. Amarrou algumas bexigas na caixa e cantou parabéns para o filho de seis anos que estava, há meses, sonhando em comer o brigadeiro de sua mãe. A recuperação era boa e o brigadeiro celebrava a persistência da mãe e a melhora do filho.

cronica do brigadeiro jessica giovanini ickfdfoto: Half Baked Harvest

Crônica do Bolo de Aniversário

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cronica do bolo de aniversario ickfdfoto: Getty Images

Se não fosse o aniversário de Beth seria uma terça-feira como as outras, mas era seu aniversário de 30 anos.  Ela acordou, como todos os outros dias do ano, em seu pequeno apartamento em São Paulo. Colocou a primeira calcinha que viu e escolheu o sutiã de sempre. Começando pelos pés esticando em direção às coxas, colocou a meia fina, não tão fina assim, de cor preta. Seu vestidinho beterraba e o cardigã, que carregaria nas mãos, mostarda. Tomou em uma golada só seu café meio aguado e, meio engasgada, comia um pão com manteiga. Na porta, com certa pressa, meio desajeitada arrumava espaço nos braços e nas mãos para carregar, não só o cardigã, como a bolsa, o jornal e o celular. Colocou sua sapatilha preta e saiu, com o coração palpitando de tanta pressa.

No ponto de ônibus esperava o seu que demorava a passar. Quando chegou, suspirou com alívio e entrou. Chegou na editora em que trabalhava atrasada, como de costume. Jogou o cardigã mostarda, a bolsa, o jornal e o celular na mesa. Começou a corrigir as redações que teria que entregar naquele dia. Eram os mais diversos textos, sobre os mais diversos assuntos, com os mais diversos problemas gramaticais. A cada acento que tinha que corrigir, ou a cada hífen que tinha que atualizar, amaldiçoava o novo acordo ortográfico que, declaradamente, ela estava em desacordo. Já no meio da manhã, depois de algumas horas sentada, levantou-se para esticar a coluna e beber uma água. De supetão sentiu-se estranha, muito estranha.

A partir das 11h da manhã daquele dia nublado, mas nem tanto a ponto de conseguir colocar seu cardigã mostarda, percebeu que seria difícil apagar a vela de seus pesados e frustrados 30 anos. Ele pensou estar madura para se preocupar com bolo, velas e afins. Pensou se comemoraria e se havia amigos o suficiente para compartilhar um bolo inteiro. Tentou se concentrar nas redações, mas a crise era tamanha que lhe parecia maior do que o desgosto com o acordo ortográfico, ou maior do que qualquer outro problema que já pensou em ter. A agonia era tamanha que cogitou em não comprar um bolo de aniversário. Pensou em tudo o que faria ou seria aos 30 e entendeu que não queria ser aquela mulher. Não queria viver aquela vida de palpitações cardíacas, nem ter aquele corpo magro de tantos bolos que se privou de comer em festas de pessoas que nem eram tão amigas assim.

Saiu do trabalho, pegou o ônibus lotado e uma chuva apertada. Seu cardigã mostarda encharcado ficou marrom e, entre seus seios, o celular lhe parecia resguardado da chuva. Ela correu para não se molhar. Mas naquela noite não quis ter medo da chuva. Percebeu que havia corrido seus últimos 30 anos na direção errada. Destemida, foi pra casa andando. Dessa vez não comprou o bolo de aniversário. Ela mesma fez e não ficou bonito, nem tão gostoso. Não cantou parabéns, mas acendeu uma vela, assoprou e comeu sozinha. No fim da noite, ligou para sua mãe, que morava no interior, e disse que estava feliz, comemorando seu dia entre amigos. Disse também que ir para São Paulo foi a melhor escolha e que estava realizada. Mentiu! Mas mentiu porque já era grande o suficiente para preocupar uma mãe. Desligou o telefone, apagou a luz e, mesmo com outras milhares de janelas iluminadas, tentou dormir. O bolo pesou em seu estômago, não mais do que a idade em suas costas.

Celebração da colheita

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celebração da colheita ickfd jessica giovaniniSeus olhinhos pretos, a crista avermelhada, com patas finas e penas amareladas desfilavam no quintal de casa. Era assustada, mas corria de forma tão atrevida. E quando andava, até que com certo ritmo, remexiam seu pescoço. Apesar de ciscar noite e dia, ainda assim sua vida parecia menos besta do que a de Dona Maria. Era domingo, mais especial do que os outros, a colheita havia sido farta e abençoada por alguma divindade. Dona Maria, mulher responsável e direita, acordou especialmente mais cedo do que nos outros domingos. Lavou o rosto na bacia, calçou as chinelas e caminhou em direção ao quintal. Lá a Carijó e a Garnisé pareciam estar especialmente mais ágeis, mas não era. Dona Maria que, notadamente mais velinha, perdia com os dias a rapidez das pernas, mas a esperteza da vida lhe sobrava. Eram as últimas duas galinhas de seu quintal.

Era um domingo especial, e tinha que escolher qual das duas comeria. Dona Maria, não só escolheu, como escolheu a mais gorda. Suas patas finas corriam mais que nunca, as asas batiam assustadamente e planejavam voos que eram apenas pequenos, e inocentes, saltos. Dona Maria não achava que teria motivos para não matar sua Carijó. Tinha fome de carne e… aliás, quem pensa com a cabeça o que a barriga impõe? Dona Maria que não. Não foi tomada por nenhum sentimento de dó, porque se um dia soube como esse sentimento atormenta as ideias, a vida fez questão de lhe apagar da memória. Foi pulando em cima da pobre que Dona Maria dava seu jeito de pegar a fujona. Apesar da Carijó estar velinha corria mesmo não planejando pra onde. Já não podia se dizer quem estava mais cansada. Mas cada vez a fome de Dona Maria lhe encorajava e o medo de morrer da Carijó lhe embravecia.

Foi em um pulo baixo e certeiro que Dona Maria caiu de barriga no chão de terra com a Carijó nos braços. A galinha, já rendida, e parecendo entender seu fim, acalmou-se. Dona Maria, sem titubear e sem adiar o tempo da vida, destroncou o pescoço do bicho e, sem permitir o tempo de um suspiro, logo passou a faca. No varal deixou o sangue escorrendo que já era coletado por uma vasilha de alumínio que ficava abaixo da carcaça. O domingo era mesmo especial, a galinha ao molho pardo celebrava a colheita e a certeza de mais uma temporada sem fome. Os vizinhos, logo que Dona Maria refogava o alho, já percebiam o aroma da festa. As verduras eram do quintal, e a polenta era o resultado do escambo de seus últimos dois ovos. O pai comia todos os miúdos, Dona Maria fazia questão de chupar as patas, e as três crianças dividiam a carne do peito. Eram propositadamente calculadas as sobras, que não eram bem sobras porque todos queriam mais. Mas ficou pro dia seguinte para a marmita do pai que trabalhava e, afinal, comia mais que os outros, não por merecimento, mas por imposição.