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Fala, Chef! – Rafael Pizanti do Barê

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Uma colher de manteiga, duas xícaras de farinha e algumas colheres de cacau podem não fazer tanto sentido em seu vocabulário diário. Na verdade, Rafael Pizanti está mesmo é acostumado com “uma dose de gim combinada com infusão de açafrão, grapefruit, xarope de romã, citrus e bitter de lavanda”, só pra você ter uma ideia do assunto. Quando se fala em ingredientes variados, por exemplo, é porque a seleção vai desde o limão tahiti até um licor grego extraído de raízes. É isso aí. Bem-vindo ao universo da Mixologia. Nessa entrevista descontraída, você vai descobrir um pouco sobre a profissão, que pode ser comparada a uma versão mais líquida, digamos, de um chef de cozinha. O mixologista desenvolve coquetéis e também cria harmonizações com comida a partir das bebidas.

Rafael Pizanti está há mais de 12 anos envolvido com a mixologia.  Em seu currículo, o cargo de melhor bartender do país indica que ele caminha na direção certa. Pizanti foi vencedor de diversos campeonatos de coquetelaria, como Diageo World Class, que o credenciou para representar o Brasil no Campeonato Mundial de Bartenders em Atenas (Grécia), Grey Goose Vive La Revolution, Absolut Crative Drinks e o Grand Prix Havana Club. Numa dessas viagens, conheceu a fábrica da Absolut, na Suécia. Quer mais?

O mixologista, que começou sua carreira numa tradicional cantina no bairro do Bexiga, já comandou o bar do Hotel Copacabana Palace na “Cidade Maravilhosa” por quatro anos e hoje é o responsável pelas criações etílicas da inusitada carta de drinques do gastrobar Barê, em São Paulo. Além disso, foi ele quem cuidou da consultoria e projetou o cardápio de bebidas do local, que oferece uma experiência gastronômica embalada pelo som de indie rock, jazz, house e soul. Os drinques mais famosos por lá são o Berlusconi – uma exclusiva combinação de vodca com frutas vermelhas ganha toque cítricos do aperol e do espumante–, Lolita – refrescante combinação da vodca com maracujá, notas de baunilha e amêndoas–, Camden Town – Gim com infusão do chá inglês Earl Grey e toques cítricos se juntam ao amargor da água tônica neste refrescante e inusitado coquetel – e Don Vito Corleone – poderoso, forte e persistente, a releitura do clássico Negroni é uma oferta que, segundo o Barê, não se pode recusar.

Sente, pegue um drinque e aproveite a entrevista.

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I Could Kill For Dessert: Rafa, pra começar, conta pra gente como você se envolveu nesse universo.

Rafel Pizanti: Fiz hotelaria e em um determinado período do curso os alunos precisavam cumprir algumas horas de estágio pra qualquer setor. Foi aí que escolhi uma cantina italiana no bairro do Bexiga e então fiz um mês de estágio no bar de lá. Comecei a fazer cursos despretensiosamente e aí apareceu uma oportunidade de emprego na área. A partir daí, as portas foram se abrindo.

ICKFD: Qual é o perfil de um mixologista e o que é a mixologia nas suas palavras?

Pizanti: O mixologista não é apenas um reprodutor de coquetel.  Ele é um cara que tem que ser criativo, comunicativo e um líder, porque vai conduzir toda a equipe do bar. Na verdade, além de ser carismático é preciso ser um showman. Antes de pensar em mixologia, o segredo é pensar em hospitalidade, é saber ser hospitaleiro. Esse é o primeiro passo da profissão. O segundo é entender o perfil de cada cliente para então saber transformar a bebida em algo único. A mistura dos ingredientes é essencial, claro, mas o importante mesmo é criar uma experiência bacana para quem está sentado no balcão. É uma arte.

ICKFD: Outra arte é saber brincar com as mais variadas combinações. Como você decide a harmonização de um drinque, que geralmente tem características bem pontuais, com qualquer outro alimento? É mais fácil combinar uma bebida com doce ou salgado?

Pizanti: Depende do seu coquetel. No concurso em que participei em Havana, fiz uma harmonização com trufas de chocolate e um coquetel feito com rum envelhecido, vermute tinto – a bebida tinha uma pegada amarga e também cítrica por causa da casca de laranja. Casou super bem, porque além de conter um bitter de chocolate no coquetel, as trufas de chocolate quebraram o amargo da bebida. Mas ainda assim, as pessoas geralmente  harmonizam mais com pratos salgados.

ICKFD: Vamos falar só da bebida, então. Quais são os drinques que mais agradam o brasileiro?

Pizanti: Ultimamente o gin está muito em alta, o que é um avanço já que nem todo mundo tem esse paladar amargo. Há um tempo, os drinques ficaram muito marcados porque as pessoas costumavam associá-los  com algo muito doce, mas hoje se vê vários tipos de drinks diferentes, diversos tipos de gin, as tônicas estão chegando com mais variedade, também. Acho que o público tem pedido drinques como o Gin Tônica, então os doces ficaram até um pouco de lado.

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ICKFD: Você acha que o Brasil tem um bom mercado para essa área ou ainda é meio restrito?

Pizanti: O Brasil evoluiu de uns 8 anos pra cá, mas no geral as pessoas estão engatinhando. A gente está muito atrás de alguns países, como a Inglaterra – Londres é a Meca da coquetaria –, Estados Unidos com Nova York e Chicago, Espanha. Isso sem contar a Ásia, com Cingapura, Japão… A gente esbarra na questão de bebidas que não chegam aqui por conta de impostos. Esse é um fator que limita muito. Além do mais, a técnica e a mão-de-obra ainda estão em formação – o acesso que eles têm está mais fraco. A cultura de quem trabalha nessa área ainda é vista como subemprego.

ICKFD: E se uma pessoa quiser se aventurar nessa área sem compromisso, apenas para curtir uns bons drinks com os amigos, quais bebidas você considera indispensáveis para se ter no bar?

Pizanti: Em casa, pra mim não pode faltar Gin. Mas o cara tem que saber brincar com todos os destilados – tem que ter opções, comprar um destilado de cada tipo. Dá pra brincar bastante nas criações com frutas, já que são mais baratas. A gente tem que valorizar o nosso país, que tem uma variedade gigantesca de frutas, raízes e temperos.

ICKFD: Para finalizar, fale sobre um ingrediente super exótico que você tem na sua bancada.

Pizanti: Tenho um licor grego, extraído da seiva de uma árvore nascida numa ilha grega. Lá, as pessoas costumam tomá-lo bem gelado depois das refeições. Esse licor tem uma pegada bem enraizada, é incrível e não tem no Brasil. Tudo que não tem no Brasil a gente tenta surpreender o cliente com algo diferente e inusitado – a gente tenta trazer bebidas com as quais as pessoas não estão acostumadas e é aquela história… Trazer uma experiência única para cada um.

www.tbfoto.com.br BARÊ - SP/SP - 16/12/2013 Foto: Tadeu Brunelli ATENÇÃO: Toda foto deve ser publicada com o crédito do autor, na sua íntegra sem cortes ou modificações, de acordo com a Lei Nº 9.610 de 19/02/1998.

E você aí que está lendo, qual foi o drink mais inusitado que já experimentou? Se quiser conhecer mais o trabalho do Rafa e se aventurar nesse mundo, faça uma visita ao BARÊ, sente na bancada e aproveite:

Alameda Lorena, 1892, Jd. Paulista, São Paulo.

Horário de funcionamento: terça a quinta, das 19h às 24h, sextas e sábados, das 19h à 2h.

Aceita todos os cartões (crédito e débito) – Aceita cheque – Não aceita ticket refeição.

Capacidade: 65 lugares.

Valet no local: R$ 20,00.

Ar-condicionado. Não possui área de fumante. Tem Wifi

Faz reservas pelos telefones (11) 3564-2015/3564-2016 ou pelo e-mail reservas@barejardins.com.br

Site: www.barejardins.com.br

Fala, chef! – Guga Rocha e Homens Gourmet

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É só ouvir a palavra “gourmet” e muita gente – inclusive eu – fica com um pé atrás da orelha. Já vêm à mente pratos chiquérrimos com aquelas comidas indecifráveis e impossíveis de serem reproduzidas em casa por nós, reles mortais. Aí não é que surge um programa de TV com quatro caras simpáticos e cheios de humor prontos a nos ensinar como preparar as melhores refeições, temperos e segredos? Os “Homens Gourmet” já estão no ar há pouco mais de dois anos, então você já deve saber exatamente sobre quem estou falando (:

Gustavo Rocha, Dalton Rangel, Carlos Bertolazzi e João Alcântara são amigos e chefs de cozinha.  Conversei com três deles (o João mora na Espanha e isso complicou um pouquinho a comunicação) de surpresa, pois sabia que a entrevista com o Guga daria certo – só não tinha ideia que o Dalton e Bertolazzi também estariam na mesma ocasião, portanto… Não podia perder a oportunidade, né? 

A conversa com o Guga girou em torno dos livros que ele está escrevendo (você vai se surpreender com a diversidade dos assuntos, sempre relacionados à gastronomia) e da vida dos chefs e estudantes de gastronomia. Apaixonado por história e, claro, comida, o alagoano foi em busca das origens da culinária brasileira, se especializando nos quilombos e em toda a riqueza de receitas que eles têm em suas raízes. Ele quer catalogar a nossa cozinha e mostrar ao mundo que o Brasil tem muito mais além da feijoada e do churrasco, que o nosso país tem uma cozinha livre. “Fui levar o projeto do livro dos Quilombos para uma instituição grande de pesquisa e eles falaram: ‘você já parou pra pensar que os únicos que fizeram um trabalho extenso e profundo sobre as origens da gastronomia brasileira foram Gilberto Freyre, Câmara Cascudo e você?’”, conta. E olha, os livros deles nem tinham receita, o do Guga vai ter 300!

Com Dalton e Bertolazzi o assunto foi o dia-a-dia dos Homens Gourmet no cenário, nas redes sociais e em como a vida é mais divertida com humor. 

Vambora?

guga rocha entrevista ickfd marinamorifoto: Portal Maceió

I Could Kill For Dessert: Você é conhecido pela sua “cozinha tropicalista”. É um tipo de cozinha necessariamente brasileira?

Guga Rocha: A cozinha tropicalista é uma desculpa muito legal para eu fazer o que eu quiser. Por exemplo: no movimento da música, do cinema com Glauber Rocha, eles pegavam influências externas, tipo o Rock and Roll, o Blues, o Jazz e misturavam com coisas da gente. Eu faço isso com a cozinha: pego o Foie Gras e sirvo com uma redução de leite de coco. Então é isso, eu sou livre pra fazer o que eu quiser, ninguém manda em mim na cozinha. A cozinha é minha e eu faço o que eu quiser! Se as pessoas gostarem, ótimo, o que eu quero é dar prazer para elas. Só não me venham com rótulos! Ninguém sabe muito bem o que é a “cozinha tropicalista”, então tá bom porque não é rótulo. 

ICKFD: Beleza. E o que é ser chef?

Guga: Acho que todo grande chef é um guloso, antes de tudo. Você tem que comer muito pra aprender, você não aprende só na faculdade. Lógico que aprende, mas você aprende comendo a comida de outros chefs, se influenciando, aprendendo. Eu não gosto de saber só que um escondidinho é feito com mandioca e carne seca. Gosto de saber que a mandioca se chama Manihot Utilíssima, que é da família das Euforbiáceas e é perene em tal época…

ICKFD: Então se você quisesse dar uma dica aos estudantes que sonham em ser chefs, qual seria?

Guga: Pra todo estudante de gastronomia eu falo: quem acha que vende comida está fadado ao fracasso. Você vende conceito. Se a comida for boa o cara volta. O que faz o cara sair de casa num sábado à noite pra comer em tal restaurante? Porque em tal restaurante tem algo que só aquele chef faz, que é diferente e tem um conceito. Para se ter um conceito é preciso muito conhecimento histórico.

ICKFD: Falando em técnica. Quantos por cento ela é necessária na cozinha?

Guga: Eu acho que uns 80%. O que acontece hoje com a molecada é que o cara sai da faculdade achando que é chef, resolve abrir um restaurante diferente mas não sabe fazer um arroz soltinho. A técnica que eu falo é a de base. Das pessoas que terminam a faculdade de gastronomia no Brasil, é muito difícil alguém que saiba fazer todos os molhos franceses clássicos. É muito limitado. Mas é como a medicina, o cara termina e faz o que? Se especializa. O cozinheiro também! Se formou? Então vai se especializar, vai viajar, conhecer as coisas. Coma muito e observe o que os outros chefs estão fazendo.

ICKFD: Então não dá pra sair da faculdade de gastronomia e se dizer chef.

Guga: Se o cara for um puta gênio, que leu um monte e se dedicou, beleza, pode ser. Mas você quer ser um artista? Então tem que se dedicar um pouco mais, viajar. Aprendi um monte de coisas em lugares que você nunca poderia imaginar, tipo quando um cara na Tailândia estava fazendo curry no chão, num lugar todo enlameado, com as coisas todas cruas e tal, e eu sentei e aprendi mais com ele do que quando estava na faculdade! Então você tem que viajar. Senão você sai achando que é bom, aí você trabalha com chefs incríveis e vê que não é bem assim…

ICKFD: E como estão os seus projetos literários agora? Sabemos que você acabou de lançar o “Receitas pra pegar mulher” e tem um sobre a cozinha Quilombola, previsto para o fim do ano.

Guga: Ao todo são quatro livros ao mesmo tempo. O primeiro é de ficção, a história de um menino que é filho e neto de uma cozinheira e que ele tem que aprender a cozinhar pra sustentar a mãe, se passa em Minas em 1914. Vai ser um livro de contos com receitas, com interações online. É bem inovador, mas dá um trabalhão. O outro é o Receita de Vó: estou catalogando as 100 mulheres mais velhas do Brasil e pegando as receitas de cada uma delas. Esse projeto é uma paixão enorme. E também estou escrevendo a continuidade do Receitas pra Pegar Mulher, que é o “Gugaaaa, faz ele casar comigo!”, com receitas para as mulheres que querem conquistar os namorados/maridos. E o último é segredo, não posso contar. 

ICKFD: Mas quando é que surgiu a sua relação com os quilombos?

Guga: Desde moleque eu convivia muito na região e comia aquela comida, os foguedos, a música… Depois de adulto virei chef, viajei mais de 15 países pra estudar cozinha e percebi que tem livro de cozinha francesa, espanhola, da grécia. Agora, procura cozinha brasileira? A Ana Luísa trajano fez um livro lindo, o Alex Atala, mas são livros da nova cozinha brasileira. Pensando na questão da pesquisa histórica, tem muito pouco: Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. É claro que tivemos chefs incríveis de culinária brasileira, mas a coisa da raiz mesmo, acho que tem pouco. Então o livro dos quilombos é pra isso, pra resgatar essas coisas que são riquíssimas… É uma pesquisa extensa, estou há 5 anos pesquisando sobre o assunto.

ICKFD: E como é que você faz para escrever 4 livros ao mesmo tempo?!

Guga: Arranjei uma técnica do c*$%@#*! Eu escrevo o de contos. Aí eu enjoo e troco, escrevo um, escrevo outro. Pronto, não cansa! E com relação ao tempo, não quero me apressar, quero lançar uma obra, não vender. Tanto que não se ganha dinheiro com livro, né. Principalmente no Brasil. 

ICKFD: Se não fosse chef, então…

Guga: Acho que eu seria escritor. Ou massagista! Adoro fazer massagem.

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ICKFD: E a relação de vocês no Homens Gourmet, como é?

Dalton: Natural, instintiva, nós somos amigos…

Bertolazzi: Selvagens!

Dalton: É como se a gente estivesse aqui agora, a gente conversa, brinca. Só que lá a gente está num momento de cozinhar, se divertir e mostrar pras pessoas um pouco do nosso conhecimento. Mas a gente não trata um ao outro diferente só por estar fora da câmera.

Bertolazzi: É, a gente até brinca que é como se soltassem a gente dentro de uma cozinha com umas câmeras filmando. Não seria muito diferente.

ICKFD: Não ter script na hora do programa dá uma liberdade pra vocês, mas também tem suas desvantagens. Qual é a dificuldade nisso?

Bertolazzi: É a gente se policiar um pouco na hora de falar, porque a gente tem que lembrar que é um programa de televisão assistido por crianças, avós, pais, mães… Então a gente tem que segurar um pouco a onda do besteirol. Às vezes o diretor chega e diz: “galera, menos!”.

Dalton: A molecagem está dentro da gente, não é questão de idade. Todo mundo gosta de brincar então a dificuldade é realmente segurar o linguajar solto.

ICKFD: Passando das câmeras para a vida real. Como vocês acham que o Brasil está para alguém abrir um restaurante, um negócio gastronômico?

Bertolazzi: Em qualquer meio sempre existe lugar para um projeto bom. O que não faz muito sentido é montar coisas sem pé nem cabeça porque acha que é um hobby, que é divertido.

Dalton: É que tem muita gente que se aposenta, por exemplo, e fala “quero ser dono de restaurante porque eu já tenho a minha vida feita agora eu quero relaxar.” Pelo contrário, ele vai descobrir que vai trabalhar muito mais sendo dono de restaurante do que antes, na empresa.

Bertolazzi: Eu mesmo trabalhava em banco e quando fui para a gastronomia não imaginei que eu fosse trabalhar muito mais. Porque mesmo que eu esteja em casa estou conectado a uma rede social, vendo os comentários dos fãs.

ICKFD: E como é a resposta do público nas redes sociais?

Dalton: Sempre positiva. Eles adoram essa irreverência, as brincadeiras…

Bertolazzi: É engraçado porque mesmo quando algumas pessoas nos xingam, logo respondemos com brincadeiras para não perder o humor.

RAPIDINHA ICKFD

1) Se vocês tivessem só três ingredientes pra fazer um jantar, quais escolheriam?

Guga: Camarão, Leite de Coco e Pimenta Dedo de Moça.

Dalton: Ovo, queijo e macarrão. Consigo fazer qualquer coisa com isso.

Bertolazzi: Macarrão, tomate e manjericão. Pronto, é o básico.

2) Sobremesa favorita?

Guga: Putz… Todas. Nossa cara, eu adoro doce. Sou muito chocólatra mas eu gosto muito de doce. Você me pergunta isso e me vem à cabeça uns 500 tipos, pudim, fondue de chocolate, pavê. Nossa, depende do dia. Uma específica não dá. [3 minutos depois] Mas espera, tem uma: bolo de rolo e sorvete de tapioca. Essa aí… É sensacional.

Dalton: Pudim, sem furinho por favor!

Bertolazzi: Só não me venha com frutas. Sobremesa tem que ter chocolate, eu gosto é de chocolate. Se for pra misturar uma fruta com chocolate, que seja banana.

Fala, chef! – Carolina Garofani da Caramelodrama

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Carolina Garofani trouxe à Curitiba um novo estilo de confeitaria. A Caramelodrama, inaugurada no fim de Abril, tem tudo o que um bom apreciador de sobremesas preza: ambiente acolhedor e doces de primeira qualidade, para começar. De italiana, a confeiteira já tinha sobrenome e persistência; para fechar o pacote, diploma do Corso Superiore di Pasticceria na ALMA, uma das melhores escolas de confeitaria na Europa. Em 2011, ela largou o trabalho de designer e tradutora trilíngue para passar um ano em Parma, na Itália, aprendendo as teorias, técnicas e “como-fazer” de todos os doces que você pode imaginar.

Doces! Nem a própria Carol poderia imaginar que uma súbita vontade de comer cupcake traria à tona um novo dom, afinal, nunca fora a filha que cozinhava e não caía de amores por qualquer sobremesa. Numa época em que cupcake era coisa que só se encontrava fora do Brasil, ela achou um site e não pensou duas vezes em comprar forminhas e todos os utensílios necessários para começar a aventura. Deu certo. Em 2010, enquanto trabalhava em dois empregos – além das traduções inglês/português/italiano -, cursava Pâtisserie no Centro Europeu e cuidava do blog de receitas e confeitaria, Carol assou 4 mil cupcakes, sozinha, para encomendas.

A Regina del Caramello (rainha do caramelo), como era conhecida na ALMA, voltou da Itália com todo o gás para abrir uma confeitaria como deve ser (clique aqui para ler o post sobre a Caramelodrama). O ICKFD conversou com a Carol sobre os desafios de fazer bons doces no Brasil, memórias de infância e polêmicas como não gostar de chocolate quando se é confeiteira. Confira:

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foto: Ricardo Perini

I Could Kill For Dessert: Você já tinha feito um curso de confeitaria aqui no Brasil, mas qual foi a sensação de estudar na Itália?

Carolina Garofani: Foi um choque, porque eu cheguei lá achando que eu sabia tudo e eu descobri que eu não sabia absolutamente nada. A confeitaria é muito mais do que mão. A gente fala que “tem que ter a mão”, mas a confeitaria é física e química, e a ALMA me ensinou isso. A gente tinha aula com professores de física e química da Universidade de Parma e nossas provas eram todas teóricas. Por exemplo: 30 perguntas abertas sobre chocolate, 30 perguntas sobre mousses e cremes e mais 30 sobre fermentação. Não acho que poderia ter escolhido uma escola melhor.

ICKFD: Como a confeitaria italiana pode ser definida, em comparação com a francesa?

Carol: A confeitaria italiana é muito feita de biscoiteria, de muita coisa seca porque a Itália passou por uma crise grande depois da Segunda Guerra. Ninguém tinha dinheiro para mais nada, além do que os insumos eram muito difíceis de encontrar. Você não conseguia fazer com que o “tiozinho” da cidade vizinha trouxesse o creme de leite, porque ele tinha as vacas mas não tinha carro, e nem você. Então a confeitaria se tornou mais seca, com farinha-ovo-manteiga como matérias-primas e muitas frutas secas. A francesa, por outro lado, é feita de cremes e coisas que escorrem, é feita de caramelo. Hoje em dia já as duas se misturaram em muita coisa; a confeitaria italiana ainda é mais seca, muito peculiar de cada cidadezinha de lá, mas os italianos perceberam o valor dos cremes. Mesmo assim, não abrem mão de certos valores.

ICKFD: Quais valores?

Carol: Um bolo nunca pode ter mais do que 5cm. Nunca, eles acham horrível. Aqui eu preciso abrir mão disso porque no Brasil a gente gosta de coisas maiores, né?

ICKFD: Você acha que as pessoas estão mais conscientes com relação à qualidade dos produtos, preocupadas em comer melhor?

Carol: Tem acontecido, as pessoas perguntam. Uma pessoa veio aqui hoje e perguntou se tinha espessante nos cremes, por exemplo. A gente não usa nada disso, nada de conservante, melhorador de farinha e eu faço questão de dizer. As pessoas têm o direito de saber o que elas estão comendo e infelizmente aqui (em Curitiba) é muito fácil de comprar coisa pronta. Você compra o Mix de creme de confeiteiro, o Mix de sei lá o que, e tudo vem com um monte de porcaria dentro, um monte gordura hidrogenada. E tem gente muito grande e muito famosa aqui que vende tudo feito com margarina, então eu faço questão de dizer: prestem atenção no que vocês estão comendo, leiam os ingredientes das coisas. Procurem saber o que todas aquelas siglas nos rótulos significam, porque isso vocês estão dando para os filhos de vocês. Aqui eu faço questão de dizer que não tem nada disso. A gente faz tudo do zero. Massa de cheesecake? A gente faz a bolacha. Nossas ervas, uso o que eu consigo de orgânico. Café, o melhor que a gente pode ter.

ICKFD: Essa é uma forma de mostrar ao público que é possível comer doces de qualidade e a Caramelodrama está fazendo isso, né?

Carol: Um dos escopos da Caramelodrama é a educação. Nem tudo precisa de leite condensado, o paladar pode abrir muito mais do que isso, a gente pode comer bons doces. Afinal, ninguém precisa de doce pra viver. Na hora que você entra nessa porta você já chutou o balde, você está dentro de uma confeitaria, desculpa, você vai engordar. Então se você vai comer doce, que ele seja o melhor que você pode comer! Engorde por qualidade, pelo menos.

ICKFD: E como são os produtos da Caramelodrama? Você foca mais na confeitaria tradicional italiana ou também faz “doces de vó”, como bolos caseiros?

Carol: É um meio termo. As massas dos bolos são massas simples, pão de ló, mas a Caramelodrama é italiana, então as bases são italianas. Eu não vou ter bolo de cenoura ou bolo de coco porque na Itália não se usa coco. A linha é italiana com um pouco de francesa, então os nossos doces são elaborados embora eu não tenha cinco recheios dentro de um bolo, tenho dois. E, claro, uma cobertura que harmoniza. Não tem bagunça de sabor.

caramelodrama ickfd4fotos: Marina Mori/Juliano Lamur

ICKFD: Falando em nomes, agora. Por que Caramelodrama?

Carol: Caramelodrama era o nome de uma papelaria que não foi a muitos lugares. O meu blog tinha outro nome, mas descobri que existe uma confeitaria em São Paulo com um nome muito parecido, cuja chef se chama Caroline, aí achei meio chato. Resolvi mudar e fiz uma enquete no blog para escolher um novo nome, e Caramelodrama ganhou em disparado, com 80% dos votos. Eu já sabia que ia dar isso, mas sabe como é, tinha que fazer na democracia.

ICKFD: Com relação ao dia-a-dia, como é a sua rotina de confeiteira?

Carol: Como meus fornecedores ainda não estão bem redondinhos, eu geralmente passo no Mercado Municipal e nos fornecedores ali daquela região antes de vir pra cá, às 7h45. Eu já tenho uma lista que a gente faz no dia anterior do que está faltando e vou conversando com a Roberta, meu braço direito, que chega na confeitaria às 8h. Chego com as compras e vamos para a cozinha terminar algumas decorações para encher a vitrine. Eu passo a manhã na cozinha, às 10h a gente abre a loja e, quando o movimento está tranquilo, consigo ficar um pouco no salão com os clientes. Almoço em cinco minutos, de pé, lá por 13h30. À tarde a gente fica repondo o que está em falta na vitrine e fazendo estoque de bolos, carolinas, biscoito. E às 18h40 a gente começa a desacelerar o salão porque fechamos às 19h…

ICKFD: A Caramelodrama está crescendo bastante e mal inaugurou! Quais são as suas expectativas para o futuro?

Carol: Sinceramente? Eu quero ter 30 caramelodramas em 10 anos, porque eu realmente acredito no que eu faço e acho que as pessoas podem aprender a comer bem. Se eu puder levar isso para outros lugares vai ser bom, só não quero perder essa mão do artesanal. Eu precisaria de uns 30 clones.

ICKFD: Quais as suas memórias de doces de infância?

Carol: Minhas lembranças de infância são de salgados, nunca tinha pensado nisso. São imagens de eu fazendo massa de macarrão com a minha avó, limpando folhinha de manjericão para fazer pesto com o meu pai, do meu avô me ensinando a assar costela enquanto bebia cerveja e discursava sobre tudo… Da língua de boi descongelando em cima da pia e da sensação de passar o dedo naquela textura diferente… Minhas lembranças são de salgados.

ICKFD: Passando dos salgados para a sobremesa, a pergunta não poderia faltar: qual é o seu doce preferido?

Carol: Eu não sou muito de comer doce, é muito difícil. Não gosto de chocolate, não somos bons amigos. “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”, né? Eu só como os meus doces, mas quase nada com exceção do cheesecake, porque ele me assombra e fica me chamando na geladeira. Ele sabe que eu estou aqui e fica lá me provocando. E, claro, o caramelo. Só de fazer o caramelo me dá uma coisa boa, o cheiro dele na panela me faz sorrir.